Ensaio sobre a realidade I
A nossa insegurança é uma das principais causas de todos os males que nos assolam. Pior, a nossa 'tão desenvolvida' razão da qual nos orgulhamos tanto é a causa de tudo. Existe uma certa hierarquia na natureza, da qual fazemos parte também, e, portanto, existem espécies com certas vantagens sobre outras. Podemos dizer que a maior vantagem que temos sobre todas as outras espécies deste planeta é a nossa mente, dotada de uma razão extremamente desenvolvida comparada aos outros seres. Mas voltemos um pouco no tempo, na época que nossos antigos ancestrais ainda não possuíam mentes tão desenvolvidas. Eles já possuíam uma consciência desenvolvida, mas não uma grande inteligência. Havia uma certa vantagem sobre outras espécies, mas esta vantagem não era tão distoante. Ou seja, naquela época eles eram muito vulneráveis à espécies mais fortes fisicamente como um urso, leão ou até mesmo um lobo. Sua razão ainda teria de evoluir muito para lhes dar uma vantagem num mundo em que era regido somente pela força física e agilidade, duas características que não possuíamos o suficiente para deixarmos de ser alvos fáceis numa cadeia alimentar. Assim, pela pouca consciência que tinham sabiam de sua inferioridade perante a várias outras espécies animais e a insegurança se instaurou em suas primitivas mentes. Podemos nem ter mais razão para isso, mas esta insegurança persiste até hoje em nossas mentes.
Conforme fomos nos desenvolvendo sentíamos necessidade de esconder a insegurança de nós mesmos e, com a nítida dominação do planeta, voltamos nossa visão para um mundo irreal, criado inconscientemente. Nossa ‘superioridade’ então nos transformou em ditadores. Nós imaginamos uma realidade falsa, impondo a nós mesmos e a tudo que existe à nossa volta nossa vontade e intrínseca arrogância. De bando passamos a andar sozinhos, e a individualidade passou a substituir a coletividade. Esta individualidade, sinônimo de egoísmo e hipocrisia, é caracterizada por vontades e personalidades diferentes entre si, criadoras dos infinitos pontos de vista e incontáveis distorções da realidade. O mundo que cada um de nós vê é aquele que cabe exatamente nos requisitos de sua vontade, estipulada pela sua otimista ou pessimista e fraca ou forte personalidade.
A personalidade, característica marcante da individualidade, estabelece os princípios de uma maneira de agir e pensar, gerando assim uma poderosa vontade capaz de criar um mundo imaginário e conveniente. Esta vontade, tão forte, transforma o falso em verdadeiro, confundindo os conceitos de realidade com os de irrealidade. Em cada mundo que cada um de nós vive não existe nada irreal, até porque o irreal não existe, mas isto acontece principalmente porque o nosso mundo é irreal. Se dermos um dado para seis pessoas o olharem, cada uma de frente para cada face dele, cada indivíduo verá uma face diferente. Mas, se mudarmos estas pessoas de posição, cada uma verá exatamente a mesma coisa que a pessoa que estava na posição anterior viu. Podemos perceber claramente que a visão do mundo funciona diferente. A cada ação, cada acontecimento vemos, que as pessoas não enxergam as mesmas coisas. Por quê? Porque aí entra uma variável a mais, tendenciosa e influenciadora: a vontade individual, que, juntamente à personalidade, forma uma opinião. E esta opinião é simplesmente a forma mais conveniente de enxergar a realidade.
Esta irrealidade humana se baseia em preceitos congruentes com vontades supervalorizadas por si mesmas e necessitadas de uma vital auto-afirmação. Assim a nossa milenar insegurança aparece novamente para criar o maior órgão social: a sociedade. Os conceitos de certo e errado que mantém toda a raça humana encarcerada numa prisão intelectual e moral são provas irrefutáveis do extremo egoísmo desta grande opositora da liberdade de pensamento. Assim podemos definir sociedade como uma irrealidade comum criada por vontades diferentes suficientemente fracas para poderem se auto-afirmar individualmente.
O ‘certo e errado’, conceitos que não existem, limitam não só a espécie humana, mas também todas as espécies existentes, a viverem sob regras uma vida que não possui regras. Logo, uma mente que faz parte da sociedade pode até conseguir se auto-afirmar, mas com a penalidade de se tornar prisioneira dela mesma. Um falso sentimento de liberdade inunda a sociedade para iludi-la do real cárcere a que está submetida e do qual não possui força (drenada pela comodidade) suficiente para escapar. A busca incansável (e às vezes aparentemente impossível) pela realidade é abandonada e substituída pela fácil e comodista criação de conceitos ilusórios certos ou errados, bons ou maus, justos ou injustos, humildes ou arrogantes, que concede à sociedade o título de cafetão do pensamento.
A individualidade, característica marcante e principal da raça humana, se prostitui e vende facilmente seu modo de pensar à maneira de pensar da sociedade. Assim sendo, nos tornamos extremamente influenciáveis e atrofiamos nosso cérebro de modo que não precisemos fazer muito esforço para se ter uma idéia, afinal é muito fácil e confortável apenas concordar com as idéias comuns da sociedade. Aos poucos vamos nos desfazendo do nosso individualismo e da nossa personalidade, e, à medida que os perdemos, nos acumulamos em um poço profundo de egoísmo, a idéia principal e antagônica, mas ainda assim a mais divulgada pela sociedade.
O objetivo primário da sociedade era a união de indivíduos. Essa união tornava o grupo forte, bem como o número de participantes dela. Assim, em cada civilização que crescia, víamos traços de pensamento diferentes, sociedades diferentes, que se baseavam em filosofias de vida diferentes. Vilarejos se tornaram vilas, que se tornaram cidades, estados e países, cada uma com uma cultura e linha de pensamento diferente da outra. Porém, os contatos que se faziam entre ‘as sociedades’ foram diminuindo com o tempo dando origem ao egoísmo. Este egoísmo destruiu e separou povos até se tornar tão forte para extinguir de vez o conceito primário da sociedade, a união. Tristemente e por fim, podemos perceber que a tendência atual da sociedade é nos isolarmos por completo de todos.


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